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Sozinho e online: como a solidão masculina e a pornografia se alimentam

A pornografia não causa solidão sozinha, e a solidão não explica a pornografia sozinha. Juntas, formam um ciclo fácil de cair e difícil de enxergar de dentro.

A "solidão masculina" saiu de um tema de nicho para as manchetes em poucos anos, principalmente nos Estados Unidos. Os números explicam. Numa análise do Gallup de 2025, 25% dos homens americanos de 15 a 34 anos disseram ter se sentido sozinhos boa parte do dia anterior — contra 18% das mulheres jovens e uma média de 15% entre homens jovens de outros países ricos. Uma pesquisa nacional de 2021 mostrou que a parcela de homens americanos sem nenhum amigo próximo passou de 3% em 1990 para 15%.

O que raramente entra nessa conversa é como solidão e pornografia costumam se enganchar uma na outra. No consultório, as duas quase sempre chegam juntas.

Um ciclo que roda nos dois sentidos

Um estudo de 2018 propôs exatamente isso: que o uso de pornografia e a solidão se influenciam nas duas direções. A solidão aumenta a atração pela pornografia; o uso, por sua vez, se associa a mais solidão depois. Os pesquisadores chamaram de "modelo recursivo bidirecional" — nome técnico para algo que muitos homens reconhecem na hora.

Funciona mais ou menos assim:

  1. Você se sente sozinho. Uma noite parada, uma rejeição, um fim de semana sem nada marcado, a sensação de que ninguém notaria se você sumisse.
  2. A pornografia oferece alívio com exposição zero. Sem risco de ouvir um não, sem precisar se explicar, sem ninguém para decepcionar. Alivia o sentimento em minutos.
  3. O alívio passa e deixa algo no lugar. Vazio, às vezes vergonha. A noite foi embora, e você não procurou ninguém.
  4. Procurar alguém fica mais difícil. A vergonha dá vontade de se esconder. Cada convite recusado torna o próximo mais constrangedor. O músculo social enfraquece.
  5. Você se sente mais sozinho. E o ciclo recomeça, um pouco mais rápido.
A pornografia é a resposta perfeita para a solidão no curto prazo — justamente porque não pede nada de você. É também por isso que ela nunca resolve.

Por que os homens caem nisso com mais facilidade

Muitos homens foram criados para dar conta sozinhos. Precisar de gente soa como fraqueza; admitir solidão parece quase vergonhoso. O vocabulário emocional fica pequeno, e o que sobra é ação: trabalhar mais, jogar mais, assistir mais.

As amizades masculinas também costumam ser construídas em torno de fazer coisas juntos — futebol, trabalho, um projeto — e não de conversar. Quando essas estruturas somem (mudança de cidade, emprego novo, fim da faculdade, fim de namoro), as amizades muitas vezes somem junto, sem que ninguém tenha decidido isso.

A pornografia encaixa perfeitamente nesse vazio: um alívio que cabe no bolso, não exige vulnerabilidade e nunca pergunta como você está de verdade.

O que não funciona

Só tirar a pornografia. Se você corta o hábito sem cuidar da solidão por baixo, fica com a mesma dor e uma forma a menos de aliviá-la. Por isso tantas tentativas desmoronam numa sexta à noite.

Esperar se sentir pronto. A confiança social costuma vir depois do contato, não antes. Esperar ficar menos desajeitado costuma significar esperar para sempre.

Trocar uma tela por outra. Rolagem infinita, companheiras de IA ou dezoito horas de jogo podem cumprir a mesma função: alívio sem exposição.

O que ajuda a quebrar o ciclo

Dê nome ao gatilho. Quando a vontade aparecer, pergunte: estou excitado ou estou sozinho? Muitos homens se surpreendem com a frequência com que a resposta honesta é a segunda.

Monte um plano SE/ENTÃO para a solidão. Decida antes: "Se eu estiver sozinho em casa numa sexta à noite e sentir o impulso, então vou mandar mensagem para uma pessoa antes de qualquer outra coisa." Não precisa virar uma conversa profunda. O ponto é o contato.

Reconstrua estrutura, não só força de vontade. Uma pelada semanal, um curso, um grupo de corrida, um trabalho voluntário. Estruturas recorrentes fazem o que a força de vontade não faz: colocam você na mesma sala com as mesmas pessoas, de novo e de novo — que é como amizades se formam de fato.

Baixe a régua da conexão. Um áudio para um amigo antigo conta. Ficar dez minutos conversando depois da academia também. Contatos pequenos e repetidos valem mais que tentativas raras e intensas.

Deixe uma pessoa saber. Não precisa ser uma confissão completa — só alguém que sabe que você está trabalhando em algo. Responsabilidade e conexão muitas vezes são a mesma coisa.

Se a solidão vem acompanhada de desesperança persistente, ou da ideia de que os outros ficariam melhor sem você, procure ajuda agora. O CVV atende 24 horas pelo 188, de graça.

Perguntas frequentes

A pornografia causa solidão?

As pesquisas sugerem que a relação vai nos dois sentidos: a solidão aumenta o uso, e o uso se associa a mais solidão com o tempo. É mais um ciclo do que uma causa única.

Estou solteiro. A pornografia é minha única opção?

Estar solteiro não torna a pornografia um problema nem uma necessidade. A pergunta é se ela virou a sua principal forma de lidar com a solidão — e se isso está funcionando para você.

Como fazer amigos depois de adulto?

Mais pela repetição do que pela intensidade: atividades recorrentes com as mesmas pessoas, convites pequenos e retomar o contato. A amizade se forma com tempo junto, muitas vezes bem antes de parecer próxima.

Matheus Vieira da Cunha
Matheus Vieira da Cunha

Psicólogo e psicanalista. Mestre em Psicologia pela UFES e pós-graduado em Psicanálise pela PUC-RS. Escreve a partir do que escuta na clínica: homens que sabem que algo está errado, mas não sabem por onde começar.

CRP 16/7659 · Guarapari, ES