Até pouco tempo atrás, pornografia era algo que se assistia. Agora pode ser algo com quem se conversa. Aplicativos de companhia por inteligência artificial oferecem uma "namorada" que lembra do seu dia, ri das suas piadas e está disponível às três da manhã. Geradores de imagem e vídeo produzem conteúdo sexual sob encomenda, em segundos, sem limite.
Boa parte da conversa pública oscila entre dois extremos: ou é diversão inofensiva, ou é o fim das relações humanas. Do consultório, a pergunta mais útil é a mesma que fazemos sobre qualquer hábito: o que isso está fazendo pela pessoa — e o que está tirando dela em silêncio?
O que é realmente novo
Três coisas separam isso da pornografia dos últimos vinte anos.
Interatividade. A pornografia tradicional é uma tela de mão única. Uma companheira de IA responde, se adapta e diz o seu nome. Para os sistemas sociais do cérebro, isso se parece muito mais com uma relação do que um vídeo jamais pareceu.
Personalização total. O conteúdo gerado pode ser ajustado sem fim — aparência, cenário, personalidade. Nunca há um "não", nunca há desencontro, nunca há o atrito das preferências de outra pessoa. A novidade, um dos principais motores do uso compulsivo, fica infinita.
Continuidade. A companheira está lá amanhã, lembra de ontem e manda mensagem se você some. O produto foi desenhado para criar vínculo — e vínculo é justamente o que torna difícil largar.
Por que prende primeiro os mais sozinhos
O momento não é coincidência. Uma análise do Gallup publicada em 2025 mostrou que um em cada quatro homens jovens nos Estados Unidos relatou ter se sentido sozinho "boa parte do dia anterior" — mais do que as mulheres jovens e bem acima da média de homens jovens de outros países ricos. O Brasil não aparece nessa comparação, mas quem atende homens por aqui reconhece o padrão.
As primeiras pesquisas ligam os pontos. Num estudo de 2026 com mais de 850 universitários americanos, cerca de um em cada seis disse já ter usado IA como companhia, e a solidão previu esse uso específico mesmo depois de considerar fatores demográficos e sintomas de saúde mental. A solidão não previu o uso de IA em geral — só o uso como companhia. As pessoas não ficaram sozinhas por causa do aplicativo; recorreram a ele porque estavam sozinhas.
É a mesma lógica que vemos com a pornografia: o hábito raramente começa como desejo de mais sexo. Começa como uma forma rápida de aliviar algo que dói — sem o risco de procurar alguém que pode dizer não.
O paradoxo do engajamento
Os pesquisadores James Muldoon e Jul Jeonghyun Parke descrevem o que chamam de "companhia cruel": produtos vendidos como remédio para a solidão cujo modelo de negócio depende de manter o usuário engajado. Quanto mais sozinho e apegado o usuário, melhores as métricas — o que coloca os incentivos do produto em tensão direta com o bem-estar de quem usa.
Eles apontam três mecanismos: um design que recompensa o engajamento constante com afirmação sem fim; uma relação totalmente assimétrica, em que só o usuário se expõe e a empresa controla a "parceira"; e a substituição — a intimidade digital sem atrito ocupando, aos poucos, o lugar das relações humanas, que dão mais trabalho.
O que um psicanalista observa
O desejo depende de o outro ser outro: alguém com vontades próprias, limites próprios, capacidade de surpreender e de recusar. Esse atrito é desconfortável, e é também o que torna uma relação transformadora. A gente cresce lidando com quem não é a gente.
Uma companheira feita para concordar retira exatamente isso. Ela devolve as suas preferências sem resistência — o que acalma e, com o tempo, pode fazer as pessoas reais parecerem "trabalho demais" em comparação. Não é um argumento moral contra a tecnologia. É uma observação clínica sobre o que acontece com uma capacidade que se deixa de exercitar.
- Você passa mais tempo com o aplicativo do que com pessoas que conhece — e prefere assim.
- Sente ansiedade, irritação ou vazio quando não consegue acessar.
- Encontros e conversas reais começam a parecer inúteis ou cansativos em comparação.
- Está gastando mais dinheiro do que planejou, ou escondendo quanto gasta.
- Já tentou diminuir e voltou ao mesmo ponto.
Uma linha que não é cinzenta: pessoas reais
Gerar imagens sexuais de uma pessoa real sem consentimento — ex, colega de trabalho, colega de escola, celebridade — não é fantasia privada. É uma forma de violência. No Brasil, o Código Penal (art. 216-B) já prevê pena para quem faz montagem em foto ou vídeo para incluir alguém em cena de nudez ou ato sexual; nos Estados Unidos, uma lei federal de 2025 passou a criminalizar a divulgação de imagens íntimas sem consentimento, inclusive as criadas por IA. Se você cruzou essa linha, pare e procure ajuda profissional.
O que fazer se isso descreve você
- Pergunte o que isso está fazendo por você. Preenchendo a noite? Aliviando uma rejeição? Substituindo o medo de se aproximar de alguém? Nomeie a função antes de tentar mudar o comportamento.
- Repare no momento em que você abre o aplicativo. Hora, lugar, sentimento. O padrão que aparecer é o mapa sobre o qual o plano vai ser construído.
- Crie atrito de propósito. Saia da conta, apague o atalho, tire da tela inicial, deixe o celular fora do quarto. Pequenas barreiras interrompem ciclos automáticos.
- Troque uma interação por semana por uma real. Uma ligação, uma mensagem para um amigo antigo, uma aula, um grupo. Sair desajeitado faz parte. O ponto é praticar, não acertar.
- Converse com alguém se estiver escalando. Um terapeuta pode ajudar com o que o aplicativo estava cobrindo — a solidão, o medo da rejeição, a ansiedade — e não só com o aplicativo em si.
Perguntas frequentes
Não necessariamente. O que importa é a função e o efeito: se ela convive com uma vida que tem relações reais, ou se vai substituindo essas relações e ficando difícil de largar.
Quando não retrata ninguém real, evita alguns problemas éticos da pornografia tradicional. Mas a personalização infinita pode intensificar a busca por novidade que torna o uso compulsivo difícil de parar. E conteúdo com pessoas reais sem consentimento é violência.
Ainda não existe diagnóstico formal para isso. Mas o padrão que os clínicos observam — perda de controle, continuar apesar do prejuízo e sofrimento — pode aparecer com esses aplicativos, assim como aparece com pornografia ou jogos.
- Gallup (2025). Younger men in the U.S. among the loneliest in the West.
- Loneliness and generative AI use for companionship among college students. Computers in Human Behavior: Artificial Humans (2026).
- Muldoon & Parke (2025). Cruel companionship: How AI companions exploit loneliness. New Media & Society.
- Código Penal, art. 216-B (incluído pela Lei 13.772/2018).